As possibilidades de interpretação de TEXTOS em forma de imagens fílmicas, livros e falas.
O meu interesse pela interpretação se deu ainda na graduação em Letras onde tive a oportunidade de discutir filosofia e cinema da ponto de vista educacional. Foram dois anos de pesquisa. A primeira intitulada Leitura e Expansão Interpretativa Através do Texto de Cinema: Ficcional procurou entender como estudantes de letras interpretavam as imagens de filmes ficcionais. A segunda pesquisa intitulada Leitura e Expansão Interpretativa Através do Texto de Cinema: Documentário e Etnografia aprofundava a primeira pesquisa abordando as questões de verdade, o que cada expectador definia como verdade, quais eram os seus regimes de verdade; todas essas análises eram realizadas através de documentários. Naquela época, buscávamos investigar como as pessoas liam um determinado texto apresentado sob forma de um filme. A questão que tentávos elucidar era: “Existe a melhor forma de interpretar um texto?” No caso dos documentários indagávamos “O filme documentário mostra/registra a verdade, ou seja, é portador da verdade, na interpretação do espectador?” Nosso método de pesquisa foi a etnográfica por esta apresentar características que ajudariam a analisar questões relevantes à interpretação ( explicar etnografia). Buscamos nas áreas de construção do conhecimento (chamadas epistemologia) as bases para nossas interpretações e interpretação das interpretações dos estudantes.
Nossa análise dos documentários fundamentaram-se nas teorias de Jacques Derrida e Mikhail Bakhtin sobre a linguagem e construção da realidade. Uma breve exposição sobre as suas principais idéias seria:
O pensamento derridiano propõe uma forma revolucionária de ler o mundo. Jacques Derrida é considerado um dos principais filósofos da linguagem no mundo contemporâneo. Proponho um apanhado de suas teorias:
Desconstrução ou desconstrucionismo (Deconstruction) –
A desconstrução das Oposições Binárias, ou seja, pares de termos opostos, filhos do racionalismo e positivismo, é uma das suas grandes propostas.
Undecidability – Trata-se do “uncertain space”, ou seja, o espaço onde as coisas são incertas; podem ser uma ou outra. Um zumbi, por exemplo, é um vivo/morto ou morto/vivo. Pharmakon – é um exemplo dado por Derrida para undecidability . O Pharmakon é um veneno ou um remédio ? Em certas situações, ele é o veneno que mata (ruim, negativo) ou o remédio (bom, positivo).
Contaminação – não significa necessariamente algo negativo (contaminar), pois, segundo Derrida, podemos ser contaminados por tudo que nos rodeia.
Segundo Derrida, é impossível não sermos contaminados. Desde o momento que nascemos, somos instantaneamente contaminados e, como vimos, não necessariamente de maneira negativa, pois podemos também ser contaminados positivamente. (exemplo: relação professor-aluno).
Sobre a desconstrução, Monte-Mór (1999) escreve:
O desconstrucionismo é o princípio que mais distingue Jacques Derrida (1981) quando se aborda linguagem. O autor se põe contra, porém, a definição do termo, por achar que o ato de definir não é coerente com seus próprios pensamentos. Isto é, a proposta do filósofo é exatamente desvelar a fundamentação que designa e solidificar a idéias, visões, atitudes nas relações.[1]
Uma de suas grandes desconstruções é o questionamento do pensamento positivista da busca da verdade absoluta. Derrida toca na questão do centro – margem mostrando como a sociedade ocidental sempre se preocupa em estabelecer um centro em detrimento de uma margem. Com isso, estabelece-se como o homem vê o mundo: uma Origem, a Verdade, uma Forma Ideal, um Ponto fixo, uma Essência, um Deus, uma Presença (POWELL 1997). O problema é que esta visão unívoca sempre privilegia uma ficando “a outra visão” sempre marginalizada e não aceita. Esse conceito gera um outro - as oposições binárias (Ocidente –Oriente, bem – mal, homem-mulher, desenvolvido-subdesenvolvido) que, segundo Derrida, não são estáticas, como pretende o mundo ocidental: eu sou americano e portanto, desenvolvido, enquanto você é brasileiro e portanto, subdesenvolvido. As oposições se alteram dentro dos variados contextos: “Não somos nós, os “subdesenvolvidos”, que muitas vezes exportamos conhecimento com descobertas nas áreas de tecnologia, biologia e medicina?”
Sobre a origem do termo, Monte Mor ressalta:
Derrida criou a palavra desconstrucionismo a partir do termo destruição, empregado por Martin Heidegger, revendo, no entanto, a sua conotação negativa e parcial. Pretendia que ela sugerisse uma demolição antagônica (Collins& Mayblin 1996) à conceitualização já encontrada na interpretação dos textos (em seu sentido amplo). A palavra deveria indicar um movimento, de dupla mão, de busca de uma desordem – ou desarranjo – e também de um rearranjo. [2]
Ao desconstruir a idéia de centro – margem, Derrida desconstrói um dos alicerces do Positivismo.
Preparei essa introdução teórica para distinguir o que chamamos de uma leitura leiga (ou interpretação leiga) e uma que consideramos crítica. A primeira observação é de que, com base em Derrida, não são valores de julgamento, ou seja, tem-se a tendência de valorar a leitura chamada crítica e desvalorar a leitura chamada leiga. Acontece que são visões do prisma, o que chamados de locais de onde se defende ou se intepreta, os LOCI de enunciação. O interessante é notar, entretanto, que essas escolhas trazem conseqüências contextuais, sociais, políticas e educacionais. Bem, à luz de Derrida exporei brevemente 2 tipos de texto que se relacionam pelo tema da violência: 1. o filme Meu nome não é Johnny do diretor Mauro Lima e as falas da Flip de Guilherme Fiusa e Misha Glenny intermediados pelo jornalista Marcun da Tv Cultura.
- Meu nome não é Johnny. O PLOT do filme é basicamente o de um jovem carioca chamado Johnny, viciado em drogas, de classe média, que acaba do consumo virando traficante. Na fala de Fiusa da FLIP, o filme não faz uma apologia às drogas. Isso porque essa foi a pergunta que lhe fizeram a maioria das vezes: no filme o viciado Johnny praticamente se dá bem no final, então entende-se que quem usa drogas Tb irá se dar bem. Fiusa defende que seu filme quer contar uma história simplesmente. Em outra fala ele defende que é preciso tratar o tema de alguma outra perspectiva já que chegar nos adolescentes proibindo dizendo Não use! Ou você é um viciado, segundo Fiusa que tem conversado com esses adolescentes por todo país, não funciona. Mais um comentário, de Fiúza sobre a maconha: não devemos ser ingênuos e sua opinião é de que se fosse legalizada, seria algo, em resumidas palavras, o cigarro ou consumo de álcool. Parece essa ter sido Tb a opinião de Misha. Misha Glenny escreveu, dentre outros McMafia, que fala das redes de crime organizado mundiais (cybercrimes). No capítulo intitulado CODE-ORANGE em alusão ao laranja ( GO-between) sobre o Brasil ele descreve um CRIME-CHAT_LINE onde sob codenomes hackes o funcionários dentro dos Bancos como por exemplo Bradesco transferem dinheiro de cartões de crédito e contas bancárias de milhares de clientes. Sua tese é de que sim existe crime organizado violento, etc e tão grave quanto o crime organizado é o que não se vê o crime organizado internacional como o cybercrime que traz conseqüências a toda a sociedade. Voltemos ao filme: uma crítica ao comentário de “apenas contar uma história”. Parece que esse comentário de que queria apenas contar uma história não convence do ponto de vista sociológico, isso porque contar uma história é contá-la de acordo com um enfoque e a partir de um posicionamento (um lócus de enunciação), portanto é político...é parcial e tem uma ideologia. Vejo uma oposição binária ( talvez a que mais tenha chocado a platéia) que é a da apologia ou não às drogas, ou seja, Johnny, o mocinho do filme é um drogado. Na maioria dos filmes os quais assistimos, desejamos os happy endings, torcemos para o mocinho ficar com a mocinha. Essa oposição bandido x mocinho é quebrada no filme, pois Johnny é mocinho ( classe média, família descente, tem namorada) e é bandido ( viciado e traficante). Essa desconstrução dessa oposição binária causa incômodo por talvez um não-lidar com a não-estaticidade dos papéis mocinho x bandido, bem x mau, certo x errado. UNdecidability (pharmakon, zumbie) onde podem ao mesmo tempo serem bons ou maus, vivos ou mortos. Deesa forma, o filme pode ser interpretado como uma apologia às drogas (incentivo à criação de vários Johnny s na sociedade, ou seja, viciados que um dia terão seu happy ending) ou uma possibilidade de discussão sobre um problema “real” ( existem vários Johnny s de classe média que inclusive podem ser amigos ou filhos de amigos dessa audiência, que podem ter ).
E a última dica é analisar a desconstrução da linearidade narrativa e banalização da violência no filme Antes que o Diabo saiba que você está morto de Sidney Lumet (Um Dia de Cão) e com Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Albert Finney e Marisa Tomei. It’s worth seeing.
[1] Parte da tese de Doutorado – Linguagem e Leitura da realidade : Outros olhos e outras vozes – Walkyria Monte Mór
[2] Parte da tese de Doutorado – Linguagem e Leitura da realidade : Outros olhos e outras vozes – Walkyria Monte Mór
Cultural Prism
language and culture seen through various perspectives
Wednesday, September 30, 2009
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